sexta-feira, 1 de maio de 2015

Desapego (em crônica)

Apareceu um filhote de gato em casa
Na verdade a casa é da minha mãe, até então moro com ela
Um gato cinza e branco ─ um cinza triste e um branco apagado
Os gatos geralmente miam, este apenas chorava
Chorava para que abríssemos a porta, aberto a porta, chorava de fome, tendo comido, dormiu
Acordou chorando, então percebi que sua força havia sido recarregada
Por que gastar toda sua energia chorando?
Por que escolheste minha companhia para chorar?
Por que ainda filhote, havia sido rejeitado?
Minha mãe não gosta de gatos, como eu disse, a casa é dela
Terei que fazê-lo passar por um outro abandono
A sensação de abandono é sempre antes experimentada com a mãe (ainda no ventre)
A vida ensinando que não pertencemos uns aos outros
Com alguns somos passageiros, com outros, passagem
Ah, todos temos um passado nesta história!
O filhote também
Alguns passados doem danadamente como se ainda estivessem aqui (fantasmas)
Mas o gato me escolheu, eu que havia de "jogá-lo em algum lugar"
Eu que iria somar motivos para o coitado continuar chorando
E foi o que fiz
Carregando o animal nas mãos, eu sentia carregar a mim mesmo
Ambos assustados com aquela situação
Queríamos ficar, a vida nos fez partir
Havia apenas uma grande diferença entre nós, a cada passo ele,
como um cubo de gelo, derretia
Eu, congelava
Chegou nossa estação, descemos juntos, indagávamos os porquês juntos
Há momentos em que a vida é quem escolhe a nossa vida

Desapegar não é esquecer
Desapegar é apenas deixar ir o que não se pode levar