sexta-feira, 1 de maio de 2015

Desapego (em crônica)

Apareceu um filhote de gato em casa
Na verdade a casa é da minha mãe, até então moro com ela
Um gato cinza e branco ─ um cinza triste e um branco apagado
Os gatos geralmente miam, este apenas chorava
Chorava para que abríssemos a porta, aberto a porta, chorava de fome, tendo comido, dormiu
Acordou chorando, então percebi que sua força havia sido recarregada
Por que gastar toda sua energia chorando?
Por que escolheste minha companhia para chorar?
Por que ainda filhote, havia sido rejeitado?
Minha mãe não gosta de gatos, como eu disse, a casa é dela
Terei que fazê-lo passar por um outro abandono
A sensação de abandono é sempre antes experimentada com a mãe (ainda no ventre)
A vida ensinando que não pertencemos uns aos outros
Com alguns somos passageiros, com outros, passagem
Ah, todos temos um passado nesta história!
O filhote também
Alguns passados doem danadamente como se ainda estivessem aqui (fantasmas)
Mas o gato me escolheu, eu que havia de "jogá-lo em algum lugar"
Eu que iria somar motivos para o coitado continuar chorando
E foi o que fiz
Carregando o animal nas mãos, eu sentia carregar a mim mesmo
Ambos assustados com aquela situação
Queríamos ficar, a vida nos fez partir
Havia apenas uma grande diferença entre nós, a cada passo ele,
como um cubo de gelo, derretia
Eu, congelava
Chegou nossa estação, descemos juntos, indagávamos os porquês juntos
Há momentos em que a vida é quem escolhe a nossa vida

Desapegar não é esquecer
Desapegar é apenas deixar ir o que não se pode levar





domingo, 23 de dezembro de 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

Alice

Sabemos que a saudade é tudo que ficou do todo que se foi.
Mas, estiveste mesmo aqui, ou tenho criado também tua ausência? [não importa agora]
É loucura, eu sei!

Os sentimentos de ontem não são mais os mesmos, tudo passa.
Nada tem fim mas não se pode negar, cedo ou tarde tudo se transforma.

Eu que tanto busco o equilíbrio, tenho que admitir que me encontro na margem do exagero. Desde criança sempre fui tão intenso...

Às vezes desprevenido, o mesmo coração que ainda bate manso, me leva a criar um mundo de mentiras pra me sentir protegido.
E depois de tanto tempo, a proteção segue sendo um dos meus maiores sonhos.
Finalmente agora tenho forças de enfrentar o fato de que nenhuma mentira é capaz de me proteger.

De todas as mentiras, você foi a mais sincera.

Não há do que se desculpar, no fim de tudo, descobrimos que não há erros.

Então acordei e vi, as mãos que tuas mãos buscavam
A paixão por quem teus lábios ardiam
Não eram os meus que teus olhos fitavam
Olhavas para trás, gritavas pelo nome: Passado
No entanto foi aí que cessaram os ais do meu coração
Quando eu tive certeza que não era eu, o teu cativeiro.





terça-feira, 20 de novembro de 2012

Ser tudo que tenho pra ser

Às vezes penso que não dará tempo de ser e fazer tudo que sonho. Ainda assim isso não me deixa inseguro ou desanimado.
Não vou me preocupar com o que possivelmente não poderei ser.
O presente momento está pedindo apenas que eu seja tudo o que eu tenho pra ser, hoje.

Assim como uma semente qualquer não é cobrada pela Natureza que deixe de ser semente imediatamente, eu também posso sem preocupação, crescer e ser ao meu tempo.

O que faz de mim sonhador não são as possibilidades e certezas que tenho de que realizarei estes sonhos, o que me motiva continuar sonhando é o fato da não satisfação que tenho com a "limitada realidade".
Algumas "pessoas sérias" por enxergarem na palavra sonho um sentido infantil, usam a palavra projeto, e mais uma vez limitam o mundo maior que há no poder de criação da mente.

Tentarei preocupar-me em não viver de preocupações.
Não tenho o Tempo como meu inimigo, ele passa conforme tem que passar.
A Natureza não erra. Errados são muitos conceitos humanos sobre o que é certo.

Sem pressa, perderei tempo com "bobagens" sem me sentir culpado. Sei que esses pequenos prazeres são como intervalos em uma guerra, necessários em nossas batalhas diárias.

Sigo aprendendo com a própria Natureza que não finge ser.
Criticam a chuva, o sol, os espinhos, o latido do cão, as folhas que das árvores caem... e ainda assim a Natureza segue sendo.

Permito-me por ora esvaziar-me de mim, transformar-me, mas minha natureza não me permite transformar-se na farsa de ser outro.


sábado, 10 de novembro de 2012

Uma morte de sentidos

Assim como a lua, a vida é feita de fases
A lua nova é de difícil compreensão 
É como se a lua por um momento deixasse de ser
Assemelho o "deixar de ser" da lua, com a morte
Durante a vida são vários os momentos em que deixamos de ser
Fase em que me busco mas não me encontro
Talvez por me buscar em lugares e pessoas sem mim
É difícil criar direção no escuro
No escuro todos enxergam o mesmo
No escuro somos todos iguais
O melhor seria manter-se inerte até isso passar
Permanecendo em silêncio diante do Universo
Enfim...
Eu não preciso entender, entender não é o caso, sobretudo é necessário sentir
Há sentimentos difíceis de serem explicados
Sentimentos mudos
Conforto-me em saber que a morte é uma fase da vida
Ela também haverá de passar

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Protetor da tempestade

"...então serei teu amigo, teu amante, teu protetor da tempestade."

E são por estas palavras que mantenho minha fé, de que um dia estaremos presos apenas, a liberdade que juramos.

Em um cenário escuro e frio, acordei só, sob a tempestade.
Entre o tudo e o nada que me cercava, a solidão fora o monstro que me fizera chorar.
No silêncio do mundo, quebrado por meus gritos de socorro. Eu, sendo ainda um menino, sem força alguma para enfrentar aquela tempestade, foi então que você apareceu.

De repente, senti-me isento da gravidade. 
Sem todo aquele peso que o mundo empunha a mim, junto a ti aquela noite pude pela primeira vez, alcançar as estrelas.

Você me fez enxergar que em toda tempestade há um lugar onde se pode encontrar a calmaria.
Sei que precisou partir, e embora hoje com tua ausência, a solidão não mais me assusta.

Jamais esquecerei tuas palavras: 
"Não importa o tamanho da noite, numa dada hora, o sol aparecerá."

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Aprendi a sorrir



Após ter vivido na tristeza de um mundo de mentiras
Aprendi a sorrir sob a tristeza do mundo real
E ainda que alguns me chamem de louco
Continuarei a fantasiar minha realidade
Para que de fato eu não fique louco
Por viver a realidade dos outros.